domingo, 1 de Novembro de 2009



No claustro há sempre luz e sombras. Há pedras gastas pelos passos dos séculos e memórias que vagueiam sem destino nem sentido. No claustro há vivos-mortos e mortos que reviveram, há vidas esquecidas, resignadas, mas há as que foram entregues, doadas. No claustro há silêncio ou murmúrios ou vozes alegres que cantam a vida. Há máscaras que teimam em não cair, há caídos que só desejam poder mascarar-se, há vidas nuas, transparentes, por vezes feridas pelo tempo e pela história. No claustro há duas portas: uma para o mundo, onde se descobre Deus nos dias e nas horas de encontro ou desencontro, nas ruas e nas casas trespassadas de egoísmo ou comunhão, no sacramento do outro, na «epifania do rosto»; a outra para Deus, onde se revela a beleza do mundo e da vida, o sentido da história de um lento e tímido peregrinar, onde se escuta o grito dos abandonados e a melodia apaixonada de uma canção de amor.
Em mim há um claustro, igual a este outro, feito de sonho e fogo e barro, construído por mãos sem número, pela força de uma verdade constantemente procurada e acolhida. Caminho agora, sereno, sob as abóbadas do claustro. Na quietude do entardecer, vejo-O e sorrio: é «Deus que percorre o jardim pela brisa da tarde».

24 de Outubro de 2009, ao entardecer...

domingo, 18 de Outubro de 2009

«Desafias-me. Lutas comigo. Vens e desinstalas-me, rompendo as amarras que ainda não me deixam ser fecundo, quebrando o orgulho que não me deixa viver na verdade, destruindo os muros protectores que ergui contra Ti, desmascarando-me das personagens que assumo, no desejo profundo de ser aceite, reconhecido e amado. Mas és Tu, meu Jesus Crucificado e Ressuscitado, Deus de vida e compaixão, o único capaz de saciar-me, o único de quem posso beber eternamente o amor, num desejo que nunca se extingue, mas que conduz à verdadeira alegria... A alegria da festa das Tuas bodas com a Humanidade, da Tua ceia nupcial comigo, quando formos Um só, no amor...
Faz-me compreender isto, meu Irmão Amado, e abre o meu entendimento, a minha memória e a minha vontade à certeza de que chegarei a ser Um conTigo se colocar a minha inteira liberdade na resposta ao Teu apelo: "Não tenhas medo; de futuro, serás pescador de homens." (Lc 5, 10)»

Vila Viçosa, 17 de Outubro de 2009

domingo, 4 de Outubro de 2009

"Seguir-Te-ei para onde quer que fores"...

Senhor Jesus, Tu me envias, de aldeia em aldeia, a anunciar o Evangelho do Reino, a acolher e a curar as feridas daqueles que pões no meu caminho e revelas-me como esse caminho, nunca isento de perigos e dificuldades, conduz à vida plena, pois realiza-se no seguimento comprometido dos teus passos.

... Convidas-me a não levar nada para o caminho, sabendo que tantas vezes não sei confiar em Ti o suficiente para deixar as minhas seguranças de lado.
... Envias-me a anunciar o Evangelho, a curar e reconciliar os homens e mulheres do meu tempo, conhecendo a minha fragilidade na vivência da tua Boa Nova e as feridas que, em mim, ainda não deixei que curasses.
... Pedes-me que eu mesmo dê de comer àqueles que, à minha voltam, andam famintos de amor e de vida e sedentos de Ti, sendo eu um mendigo da tua misericória, que não possuo senão os dons que de Ti recebi.
... Bates à minha porta e perguntas-me quem digo eu que Tu és, embora eu não saiba abrir-te o meu coração e acolher a tua presença, aquilo que és, o meu Salvador e o meu Deus.
... Apelas a que eu seja o mais pequeno entre os irmãos, quando o espaço que dou ao meu egoísmo é tão grande, que, por vezes, não tens lugar onde habitar em mim.
... Deixas como meta da opção por Ti o caminho da cruz, e, tantas vezes, vês como me escondo nas minhas inseguranças e no mundo construído à minha imagem, com medo do sofrimento e das tribulações, que o permanecer no amor pode trazer-me.
... Dizes-me que "quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não está apto para o Reino de Deus", Tu que sabes bem como me deixo prender pela nostalgia, pela tristeza, pela satisfação imediata, pelo que tenho e fico paralisado no caminho, sem deixar que me leves para onde queres.

Nada mais posso fazer, meu Jesus, senão entregar-me com confiança nas tuas mãos, sabendo que, se me escolheste para Ti, me darás a graça para corresponder ao teu dom. No teu Espírito, ensina-me a confiar no teu amor, a acolher com alegria os dons que colocas nas minhas mãos, a deixar-Te curar as feridas do meu coração, a procurar conhecer-te na Verdade, a ser humilde servo dos irmãos e do Reino, a abraçar a cruz com que alcançarei a Ressurreição, a viver na liberdade e no desprendimento, fazendo de Ti o centro da minha vida.

Só quero que vivas em mim e derrames, com abundância, no meu coração o Espírito que dá a vida e realiza a vontade do Pai, para me tornar servo pobre, casto e obdiente do Evangelho e lugar de encontro entre Ti e os homens e mulheres, meus irmãos...

Leiria, 10 de Dezembro de 2008

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Viver de Amor!



"Viver de amor, não é, cá nesta terra,
fixar morada no cimo do Tabor;
é, com Jesus, subir ao Calvário,
é amar a Cruz com todo o ardor.
No Céu, então, viverei só de gozo,
já não terei angústias nem dor:
Agora quero, num sofrer doloroso:
Viver de amor! Viver de amor!

Viver de amor é dar sem medida,
sem o salário querer reclamar;
dou sem contar, e bem convencida,
nada recusa quem sabe amar.
Amor Divino! Ó Fornalha acesa,
tudo Te dei! Corro com ardor...
Eu já não tenho mais que esta riqueza:
Viver de amor! Viver de amor!

Viver de amor, que estranha loucura!
Diz-me o mundo: cessa de cantar;
inutilmente, não percas a vida,
os teu perfumes sem deles gozar!
Amar Jesus, que perda fecunda!
Os meus perfumes são p'ra Ti, Senhor.
Quero cantar ao sair deste mundo:
Morro de amor! Morro de amor!..."

S. Teresa do Menino Jesus

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

"O meu Deus tornou-se a minha força"...

"Fez da minha palavra uma espada afiada,
escondeu-me na concha da sua mão. (...)

Disse-me: «Israel, tu és o meu servo,
em ti serei glorificado.»
Eu dizia a mim mesmo: «Em vão me cansei,
em vento e em nada gastei as minhas forças.»
Porém, o meu direito está nas mãos do SENHOR,
e no meu Deus a minha recompensa.
E agora o SENHOR declara-me
que me formou desde o ventre materno,
para ser o seu servo,
para lhe reconduzir Jacob,
e para lhe congregar Israel.
Assim me honrou o SENHOR.
O meu Deus tornou-se a minha força."
Is 49, 2-5

Deus, meu Pai e meu refúgio, mais um dia chega ao fim... És Tu quem me conduz na descoberta de novos caminhos, és Tu o protagonista de tantos encontros e diálogos, és Tu a "sarça" que em mim arde sem se consumir e o silêncio que pacifica. Tento perceber a minha história como "história de salvação" e dar um sentido "Teu" a tudo aquilo que experimentei e vivi.
Porque me escondes na concha da Tua mão, sei que a cruz é fecunda e que aí se manifesta toda a Tua força, o amor doado e gratuíto. E este amor, puro dom de Ti mesmo, faz-me compreender que depositas nas minhas mãos uma tarefa preciosa e exigente. Dando-Te a mim e acolhendo-me em Ti, pedes-me a disponibilidade necessária para, através de mim, Te dares a todos os homens e mulheres que cruzem o meu caminho.
Quero, hoje, ser pequenino... Quero confiar-me inteiramente a Ti, colocar nas Tuas mãos a minha história e o ministério que me convidas a encarnar, quero adentrar o Teu Coração para aí fazer morada.
Faz-me capaz da Tua humildade que dá espaço à liberdade e ao ser do outro, torna-me capaz do Teu silêncio responsabilizante e transformador, faz-me capaz da Tua misericórdia que perdoa, acolhe e recria até às raizes do próprio ser. Sê, hoje e para sempre, a minha força, a força do meu amor até à dádiva total.
Amen.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

"Reaviva o dom de Deus que há em ti"...

"É o sinal da cruz, como um chamamento ou um incentivo contínuo, que cada dia abre de par em par diante da vida humana horizontes insuspeitos e pede a renúncia a projectos mesquinhos; a cruz, portanto, como companheira habitual, inclusive quotidiana, não como desagradável sucesso eventual que terá que exorcizar e excluir o mais possível os projectos pessoais, mas como distintivo inequívoco da presença e do projecto daquele Deus que quando ama chama, e precisamente porque ama, chama a amar à sua maneira, assim como um dia chamou o Filho à kénosis, ao esvaziamento voluntário, a fim de dar ao homem espaço para ser libertado. E o jovem sente-se chamado a amar e a gastar a sua vida, já não de maneira humana e instintiva, mas passando através de um processo de conversão dura e progressiva!"
Amadeo Cencini

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Perante o silêncio que brota do fundo do ser, tomo para mim estas palavras, fazendo delas a expressão da alma e o murmúrio que, hoje, elevo para Deus...

"Existe um só Caminho.
Aparentemente ele é desconcertante,
mas conduz à meta, e só ele é a verdade.
Todos os dias e toda a história humana
o constatam com uma evidência real
para os olhares francos.

É o Caminho
da Agonia de Amar
para a Ressurreição,

Caminho de Des-ilusão
que rasga e despe, e deixa mais livre
face ao Real Absoluto...
para o Entusiasmo
do face a face
com o Amor Real, Absoluto, Único, Universal.

Não há outro Caminho seguro
senão o desta contradição,
deste confronto,
que é preciso aceitar,
que é preciso querer,
ao qual é preciso recusar esquivar-se
custe o que custar.
Só ele é fecundo, quer isto se veja quer passe despercebido."

Abbé Pierre (1957)